Julien Baker – Rejoice

Há canções que para serem escritas é necessária uma coragem imensa. Porque são pessoais. Sobre algo que nos aconteceu ou a alguém próximo. Sobre perda. Sobre a morte. Sobre um momento só nosso. Sobre algo não falaríamos com qualquer um. Sobre cicatrizes que transportamos connosco durante toda a vida e quem sabe se para além dela também…

«Rejoice» da Julien Baker é uma dessas.

Fala sobre a sua relação com Deus e dos amigos que perdeu (drogas, suicídio), de uma (aparente) tentativa de suicídio.

Arranca num misto de lamento e de revolta…

All of my friends live in a plastic bag walking around
Jumping the train tracks, over the fence, veins all black
Sleep on a bench in the park on my birthday
Call the blue lights
Cursed your name when I find I’m still awake

E em momento algum nos deixa esquecer que por vezes tudo é uma merda e parece impossível de dar a volta…

Give me everything good, and I’ll throw it away
I wish that I could quit but I can’t stand the shakes
Choking to smoke, or singing your praise

Mas o tempo, se nós quisermos e deixarmos, por vezes, tem o poder de nos curar e de nos moldar; de nos mostrar outros caminhos e de aceitar outras perspectivas e de nos ajudar a encontrar o nosso equilíbrio, seja pela via da fé (como é aqui o caso) ou qualquer outra…

But I think there’s a god and he hears either way when I rejoice and complain
Lift my voice that I was made
And somebody’s listening at night with the ghosts of my friends when I pray
Asking “Why did you let them leave and then make me stay?”
Know my name and all of my hideous mistakes
But I rejoice. I rejoice. I rejoice. I rejoice

Deus é omnipresente ao longo de toda a canção, uma necessidade para Baker, mas isso para mim nem é a maior demonstração de fé e crença que a canção encerra em si. Essa demonstração acontece na forma como Julien Baker a interpreta, em especial quando canta os versos finais com um entrega e um crer que são palpáveis e arrepiam, com o ponto alto a surgir cada vez a sua voz pronuncia “rejoice”.

The National – The System Only Dreams in Total Darkness

O texto que se segue foi publicado originalmente na Rua de Baixo e pode ser lido aqui.

Este exercício é novo para mim. Nunca tinha, até este momento, tentado escrever um texto apenas em torno de uma canção e «System Only Dreams in Total Darkness» teve o condão de despertar esse desejo em mim.

É certo que ser uma canção dos The National contribuiu, e muito, para esta decisão. Os The National e eu já temos uma relação longa. Qualquer coisa como 15 anos. É algum tempo e deixem-me que vos diga, que tem tudo para durar uma vida. Há coisas que não se explicam… vivem-se e sentem-se. Esta é uma delas.

«System Only Dreams in Total Darkness» é uma canção diferente da banda. Basta escutar os primeiros segundos para o perceber. Começa com uma voz angelical, em jeito de coro, que poderia pertencer às Annie Clark, a.k.a. St. Vincent (não sei se é). E depois tem quase tudo aquilo que muitas outras canções dos The National não tinha em quantidades tão palpáveis quanto esta.

Aventura-se ao ponto de nos oferecer Aaron Dessner, senhor que anda quase sempre em torno dos teclados, a arrancar um solo de guitarra que eu não sabia que aquela banda conseguia sacar. Mas há mais, enquanto esse solo se desenrola, por trás, podemos escutar o baixo de Scott Devendorf, por terrenos que piscam o olho ao funk. Já a bateria de Bryan Devendorf contínua única, sui generis e magistral. É desconcertantemente reconfortante ouvir aquela bateria. Nunca sabemos para onde nos vai levar a seguir mas quando lá chegamos, gostamos. Muito.

Todos combinados, estes factores tornam este primeiro avanço para “Sleep Well Beast” muito promissor e deixam-me a salivar pelas restantes faixas que integram o álbum (há mais 11).

Falta apenas falar sobre um aspecto. A letra. Matt Berninger contínua exímio na arte de nos presentear com a derradeira metáfora. Com letras que combinam inteligência, actualidade e um sentido de humor muito peculiar, ou que nos mergulham na dúvida sobre aquilo que realmente Matt nos quer dizer. A letra de «System Only Dreams in Total Darkness» é sobre tempos negros e como tudo pode mudar de um momento para o outro. Digo eu… mas será?… Realmente?

The system only dreams in total darkness
Why are you hiding from me?
We’re in a different kind of thing now
All night you’re talking to God

Canções como esta fazem falta. Preenchem-nos a alma.

I cannot explain it
Any other, any other way

Mount Eerie – Ravens

São muito poucos os álbuns que me deixam com um nó na garganta. São ainda menos aqueles que o conseguem logo à primeira audição. “A Crow Looked at Me” consegue-o. Phil Elverum, perdeu a mulher, vítima de cancro pancreático, quando esta tinha apenas 35 anos. Isto aconteceu no ano passado. Elverum ficou só, com a filha de ano e meio. A dor é recente.

“A Crow Looked at Me” foi descrito pelo próprio como “barely music”. É verdade. É isso e muito mais. É dor, perda e é luto. Mas também é de uma coragem imensa. Ao longo das onze canções que o compõem, Elverum, revive memórias; boas e más, e mostra que a vida continua a desenrolar-se diante dos nossos olhos e o quão importante isso é.

Feist – The Circle Married the Line

Este post não é de todo alheio ao facto de hoje ter sido dado a conhecer a primeira canção, «Pleasure», do novo álbum de Leslie Feist, que  partilha o título com a canção. Mas a verdade é que a minha mente me levou de volta a uma canção de “Metals”, o álbum anterior. «The Circle Married the Line» são três minutos e vinte e poucos segundos de perfeição que surgem mesmo no meio do álbum, como que para transmitir uma sensação de paz e equilíbrio.

É uma canção sobre a procura pela clareza de pensamento, de espírito e de ideias. É de uma beleza ímpar. Não a consigo imaginar cantada por outra voz. Não há arranjos a mais, nem a menos. É delicada e forte. Tem o poder de nos conseguir colocar um sorriso estúpido na cara sempre que toca. Eleva o espírito e, não menos importante, as palavras que a compõem, são o reflexo perfeito daquilo que a canção quer transmitir.

A clareza de espírito pode levar o seu tempo a atingir, mas quando a atingimos pode ser tão bela como assistir a um pôr do sol sobre o oceano.

First light was
Last light was
Alright when
The circle married the line

All we need is a horizon line
Get some clarity following signs

Death Cab For Cutie – Long Division

A matemática rodeia-nos. Está por todo o lado. Até nas relações. Até no amor. Podemos definir uma relação amorosa que se inicia como um 1+1. Pode soar redutor, mas não deixa de ter validade. Depois se evoluir, se sobreviver a todas as adversidades e desafios, pode até tender para o infinito. Esses são os finais felizes. Aqueles que todos procuramos, mas que nem todos encontram.

«Long Division» não é sobre um final feliz. É sobre um caminho, como tantos outros, com altos e baixos e, cujo tempo, sempre incansável e sem dar tréguas vai corroendo, vai fraccionando mas que subsiste, que nem uma longa divisão sem qualquer resto.

“And they carried on like long division
And it was clear with every page
That they were further away from a solution that would play

Without a remain remain remain remainder”

Ty Segall – Orange Color Queen

Ty Segall tem 29 anos de idade. Tem 8 álbuns em nome próprio, um com a sua Ty Segall Band e inúmeras singles, EP’s e colaborações com outras bandas. Não pára e é daqueles que não sabe fazer nada mal. Quase que enerva (na realidade não enerva nada mas não interessa!). E agora prepara-se para lançar o 9º álbum, novamente um homónimo (como já tinha acontecido com o álbum de estreia). A primeira canção mostra-nos uma faceta mais calma de Segall, longe daquele registo mais rock-punk-garage-psicadélico-sujo que é seu apanágio regular. Desta vez, «Orange Color Queen» – assim se chama a canção – parece que sempre existiu. Tem um refrão orelhudo, uma estrutura clássica. É uma canção quase pop e viciante.

A dada altura, Segall canta “You beautiful, lazy, orange-color lady”; o amor deixa-nos assim, a flutuar e com Ty não é diferente. A canção é dedicada à sua namorada que tem cabelo, sim, isso mesmo… laranja!

www.ty-segall.com
genius.com/Ty-segall-orange-color-queen-lyrics

Arcade Fire – In The Backseat

Foi em 2005, durante uma viagem de autocarro entre Lagos e Sines. Não tenho uma ideia exacta de que dia era mas sei que foi no final de Agosto. O Paredes de Coura já tinha terminado e os Arcade Fire tinham dado aquele concerto épico que ficou nos anais da história. Não o vi. Aliás, nessa altura ainda estava a perceber ao certo se os queria continuar a ouvir ou não e nessa viagem aconteceu algo que ainda hoje não sei bem explicar. Um dos álbuns que tinha no magnífico leitor de MP3 com 128 ou 256 megas – já não me recordo ao certo de quanto espaço tinha – era o “Funeral”. Faltavam apenas 6 minutos e 40 segundos para o álbum chegar ao fim, ou seja, restava uma canção. Uma canção que é diferente de todas as outras. Após nove canções épicas, surge uma que é delicada e suave, mas cujos arranjos e pormenores não ficam a dever, em nada, às restantes. Esta canção é cantada quase como um sussurro, pela voz de Régine Chassagne. Chama-se «In The Backseat». Quando começou, algo se passou cá dentro. À volta tudo parou. O volume subiu mais um pouco. Um arrepio na espinha, daqueles vindos mesmo lá do fundo subiu pelas costas acima. A canção fala sobre o medo intenso de guiar que algumas pessoas têm. Fá-lo com poucas palavras mas fá-lo de forma perfeita. Cada verso tem a sua conta, peso e medida.

I like the peace
In the backseat
I don’t have to drive
I don’t have to speak
I can watch the countryside…

Naquele momento e até ao final da viagem a canção ficou em repeat. Naquele momento fez-se clique. E ainda hoje faz. A fotografia que acompanha este texto é do Anton Corbijn. Se ainda não conhecem o trabalho dele, fica aqui a sugestão.

arcadefire.com/site/

 

Álbuns de 2016

2016 teve muito para escutar e escutar tudo é cada vez mais impossível. Restam por isso os álbuns que nos recomendam, aqueles em que tropeçamos, aqueles que escutamos na rádio, aqueles que nos aparecem nalguma mailing list sombria e underground, aqueles que descobrimos ao escutar a banda num concerto ou aqueles que decimos ir escutar só porque sim e adorámos (estes sabem realmente bem). A lista que se segue é o reflexo de um ano a escutar música, com estados de espírito diferentes em diferentes alturas. É pessoal e não aspira a nada mais do que partilhar os discos que mais prazer me deram ouvir durante 2016.

Se PJ Harvey nos mostrou (mais uma vez!) que é uma mulher ímpar no mundo da música, Nick Cave conseguiu colocar-nos a olhar a morte de frente e a dar, como nunca, valor à vida. Se Mitski nos aponta um futuro risonho, Neko Case, KD Lang e Laura Veirs mostraram-nos que a idade e a experência são um posto. Os Radiohead vão continuar a agradar a meio mundo e a frustrar a outra metade. É assim, não há volta a dar. Cass McCombs continua a surpreender álbum após álbum, como um exímio compositor de Canções (é de propósito). A Angel Olsen corouo-se a si própria porque “My Woman” assim o exige. Do outro lado da fronteira, a catalã Joana Serrat mostrou a universalidade do folk. E o que dizer de Portugal… Noiserv deixou-me sem palavras, os Marvel Lima obrigaram-me a dançar e os Memória de Peixe a abanar a cabeça. Old Jerusalem trouxe ao de cima o melancólico que reside em mim e MEDEIROS/LUCAS deixaram-me de peito cheio.

Podem encontrar a lista completa aqui.

Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo

Elza Soares é uma força da Natureza. Muitas vezes só, contra tudo e contra todos. Tem uma história de vida impressionante, daquelas que quase que custa a crer; nasceu pobre, passou fome, foi forçada a casar, foi mãe, perdeu filhos, foi casada com Garrincha (sim o futebolista), cantou. E ainda canta. Para nossa felicidade. Por incrível que pareça, só agora, com 79 anos, é que lançou o primeiro álbum composto por temas inéditos. O álbum tem o mesmo título da canção que aqui partilho e se ainda não o escutaram deviam fazê-lo. É MPB e Samba com upgrade, numa versão 3.0.

Eu quero cantar até o fim
Me deixem cantar até o fim
Até o fim eu vou cantar
Eu vou cantar até o fim
Eu sou mulher do fim do mundo
Eu vou, eu vou cantar, me deixem cantar até o fim

genius.com/Elza-soares-mulher-do-fim-do-mundo-lyrics

Wild Beasts – Palace

Esta canção tem um problema enorme; é curta. Curta de mais. Há canções que achamos longas de mais. Estamos sempre a pensar que deveriam acabar num dado momento mas elas teimam em continuar. Outras têm a duração exacta. Nem mais, nem menos. Essas são as que brilham. Ouvimo-las vezes sem conta. PlayRepeat. Muitas vezes. Depois há aquelas que soam curtas. Soam perfeitas e de repente… terminam. De forma abrupta. Nesse momento é difícil não sentir uma certa frustração mas depois lembrado-nos de duas palavrinhas. PlayRepeat. Ainda mais vezes.

Não sou o maior fã de canções de amor. Gosto de poucas. Uma canção de amor é um pouco como a procura deste sentimento; difícil de encontrar, difícil de atingir. Esta faz parte deste restrito lote. Não é uma canção simples mas as inúmeras metáforas que contém são deliberadamente claras e não nos deixam indiferentes. Não podem. Antes de terminar, duas palavras apenas. PlayRepeat.

In detail you are even more beautiful than from afar
I could learn you, like the blinded would do
Feeling a way through the dark

wild-beasts.co.uk
genius.com/Wild-beasts-palace-lyrics