Nicolas Godin

No final do ano passado tive a oportunidade de conversar com Nicolas Godin sobre a sua estreia a solo, “Contrepoint”. Este é o resultado dessa conversa, publicado originalmente na Rua de Baixo.

A fotografia é da Graziela Costa.

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NICOLAS GODIN | ENTREVISTA

“O cérebro humano não precisa de discos longos“

“Contrepoint” marca a primeira aventura em nome próprio de Nicolas Godin, metade dos Air, e foi o pretexto para uma conversa em pleno Teatro Tivoli, umas horas antes de subir ao palco.

O Nicolas percebeu há algum tempo que precisava algo mais para além dos Air, e é aí que “Contrepoint” entra. O ponto de partida do álbum é muito interessante (as reinterpretações de Bach por Glen Gould) mas rapidamente percebemos que é muito mais do que isso, muito mais pessoal…

“Adoro conceitos como o início de algo mas, assim que começo, quero esquecer o conceito. Por exemplo, quando fizemos as “Virgens Suicidas”, eu queria que as pessoas escutassem a banda sonora sem que vissem o filme. Neste caso parto de Bach mas quero que as pessoas o escutem sem saber que é Bach. Tento sempre ter uma ideia forte quando começo um projecto mas depois quero esquecer essa ideia. É uma abordagem estranha; tento fazer uma coisa, e o oposto ao mesmo tempo.”

O detalhe em cada canção é espantoso. Quando estamos a escutá-las, estamos a ser presenteados com pequenos detalhes, sons, todos eles cuidadosamente introduzidos. Cada canção é diferente da anterior e cantada em várias línguas.

“Estava farto de Inglês, na realidade. Durante 15 anos da minha carreira, cantei quase sempre em Inglês. Os cantores que me acompanham cantam em Inglês, as palavras são cantadas em Inglês, tudo é em Inglês. Eu adoro Inglês mas a dado momento, como criador, como artista, queria algo novo com esta gravação. E como é que podia fazer algo novo se a língua que eu uso é sempre a mesma? Então disse a mim mesmo que não iria incluir nenhuma canção em Inglês no álbum, porque seria apenas aborrecido.”

Tem inclusivamente Marcelo Camelo a cantar na magnífica «Clara». Como é que isso aconteceu?

“A minha primeira escolha foi o Caetano Veloso. Mas para além de gostar de trabalhar com artistas da minha geração, também gosto de trabalhar com novos artistas e de todos os artistas brasileiros que conheço, penso que o Marcelo tem a melhor voz.”

O título do próprio álbum é, também ele, curioso…

“É a ideia e o seu oposto ao mesmo tempo. O que as pessoas não sabem é que “Contrepoint”, como técnica clássica, quer dizer o oposto do que quer dizer contraponto (a palavra que usamos no dia-a-dia), quando dizemos algo com um ângulo diferente. Já o contraponto na música clássica são diferentes melodias que se juntam para formar um discurso, sempre com o mesmo objectivo. Foi uma técnica nova e eu fiquei surpreendido porque eu toco música pop, onde tocamos um acorde e cantamos uma melodia sobre esse mesmo acorde e eu percebi que com Bach não há acordes, apenas há melodias, e fiquei surpreendido porque não sou um músico clássico e para mim foi novidade.”

É um álbum curto mas ao mesmo tempo, quando o estamos a escutar, parece mais longo. Talvez seja devido às formas como as canções crescem em nós. A duração foi algo premeditado ou ocorreu naturalmente?

“Sim, há muita informação em cada canção, então a dado ponto decidi estabelecer um limite. A partir de certo ponto torna-se demasiada informação para o cérebro e perdemos o foco. Senti que não preciso de demasiada “canção” e apenas preciso da dose certa. A outra coisa é que eu cresci com o vinil. Quando o CD apareceu as pessoas começaram a compor álbuns mais longos e ninguém precisa de álbuns longos. O David Bowie edita álbuns com sete canções, Herbie Hancock, até Fela Kuti, apenas com duas canções, uma em cada lado, então questionei-me: “porquê fazer um álbum longo?”. O cérebro humano não precisa de discos longos.“