Álbuns de 2016

2016 teve muito para escutar e escutar tudo é cada vez mais impossível. Restam por isso os álbuns que nos recomendam, aqueles em que tropeçamos, aqueles que escutamos na rádio, aqueles que nos aparecem nalguma mailing list sombria e underground, aqueles que descobrimos ao escutar a banda num concerto ou aqueles que decimos ir escutar só porque sim e adorámos (estes sabem realmente bem). A lista que se segue é o reflexo de um ano a escutar música, com estados de espírito diferentes em diferentes alturas. É pessoal e não aspira a nada mais do que partilhar os discos que mais prazer me deram ouvir durante 2016.

Se PJ Harvey nos mostrou (mais uma vez!) que é uma mulher ímpar no mundo da música, Nick Cave conseguiu colocar-nos a olhar a morte de frente e a dar, como nunca, valor à vida. Se Mitski nos aponta um futuro risonho, Neko Case, KD Lang e Laura Veirs mostraram-nos que a idade e a experência são um posto. Os Radiohead vão continuar a agradar a meio mundo e a frustrar a outra metade. É assim, não há volta a dar. Cass McCombs continua a surpreender álbum após álbum, como um exímio compositor de Canções (é de propósito). A Angel Olsen corouo-se a si própria porque “My Woman” assim o exige. Do outro lado da fronteira, a catalã Joana Serrat mostrou a universalidade do folk. E o que dizer de Portugal… Noiserv deixou-me sem palavras, os Marvel Lima obrigaram-me a dançar e os Memória de Peixe a abanar a cabeça. Old Jerusalem trouxe ao de cima o melancólico que reside em mim e MEDEIROS/LUCAS deixaram-me de peito cheio.

Podem encontrar a lista completa aqui.

Chairlift

No final do ano passado tive a oportunidade de conversar durante alguns minutos com Caroline Polachek e Patrick Wimberly antes do concerto que deram no Coliseu dos Recreios em Lisboa. O artigo foi publicado originalmente na Rua de Baixo.

Chairlift | Entrevista

Os Chairlift acabaram de lançar álbum novo. Chama-se “Moth” e nós falámos com a dupla pouco tempo antes de subirem ao palco do Coliseu durante o Vodafone Mexefest. Da curta conversa ficou vincada a ambição e a coragem de quem não se conforma com o que tem e que procura sempre fazer melhor, fazer diferente, correr riscos. Eis Caroline Polachek e Patrick Wymberly em discurso directo.

Vão lançar um novo álbum em Janeiro, mais de três anos depois de “Something”. Podem falar-nos um pouco sobre ele? Qual a história por detrás do título?

[Caroline Polachek] “Moth” vem de uma das canções do álbum mas tem, de certa forma, um significado maior, mais abrangente como título do álbum. Não se vêem traças (“moths”) em Nova Iorque muito habitualmente e quando as vemos sentimo-nos como que um pouco preocupados com elas porque sabemos que não vão durar muito tempo. Mas por outro lado as traças têm uma extraordinária capacidade de persistência, e continuam a fazer coisas que nem são necessariamente boas para elas… [risos] São no fundo criaturas belas e frágeis e eu gosto particularmente dessa ideia de ser uma coisa sensível e suave, num sítio duro e complicado. E é dessa direcção que o nosso disco vem… de uma ideia de persistência e de vulnerabilidade.

O primeiro single, «Ch-Ching» é extremamente dançável. É uma daquelas canções em que é quase impossível ficar sem bater pelo menos o pé. É um reflexo do álbum ou é apenas um momento?

[Patrick Wimberly] É apenas um momento do disco. Como a Caroline descreveu antes… [risos]

[CP] Os nossos álbuns são quase como playlists… há extremos e canções que ficam algures pelo meio. Se te lembrares do nosso último disco, não tínhamos canções como a «Amanaemonesia». Gostamos de evoluir, mudar, tocar e recorrer a sons diferentes. Mas depois de se escutar algumas vezes o álbum, penso que se conseguia perceber que a «Amanaemonesia» estava de alguma forma ligada ao resto do disco, embora fosse um momento extremo. Gostamos de surpreender as pessoas…

Que têm ouvido ultimamente? Influenciou-vos de alguma forma durante o processo criativo do álbum?

[PW] Ultimamente tenho ouvido Celia Cruz. É uma artista fabulosa de salsa, mas em termos de influência para o álbum tenho ouvido Timbaland… tudo o que ele fez nos últimos anos acabou de alguma forma por influenciar…

Têm incorporado outras formas de arte como o vídeo e a dança nas vossas performances (também muito presentes no teu trabalho como Ramona Lisa). Vêem-no como um complemento do vosso trabalho ou é na realidade parte daquilo que são como artistas?

[CP] É um pouco de ambos. É um complemento e uma grande parte do todo. Penso que é da responsabilidade de um artista providenciar uma imagem para a sua música, porque se não o fizermos nós, alguém o fará e penso que se tens uma visão na tua cabeça e não a pões cá para fora, não estás a ser leal para contigo próprio e para com a tua canção.

O que poderemos esperar dos Chairlift em palco, agora que há um álbum novo mesmo à porta?

CP: Em palco vamos ter uma nova banda. A cada álbum reformulamos por completo o nosso espectáculo ao vivo. No primeiro disco éramos três em palco. No segundo disco éramos cinco pessoas e agora vamos ser quatro mas com um alinhamento sempre diferente. Vamos ser acompanhados por um fantástico músico de jazz chamado Danny Meyer, no saxofone, e Starchild [nota de rodapé: que também colaborou recentemente com Dev Hynes e Solange Knowles] nas vozes, percussão e guitarra. O Patrick… eu vejo-o como o piloto de uma nave espacial. Ele é como uma “beat station”. O guardião do groove… Basicamente ele vai estar a remixar as canções ao vivo.

Fiona Apple

Em Novembro do ano passado tive, finalmente, a oportunidade de ver ao vivo Iron & Wine. Foi algo que demorou a concretizar-se mas que eventualmente se tornou passado, embora ainda bem fresco e marcado na memória. Mas há outros nomes que aguardam a sua vez e a Fiona Apple é um desses nomes. Dizer que a norte-americana é a compositora mais talentosa da sua geração é, no mínimo, pretencioso mas não me parece exagero se afirmar que está num lote restrito.

As canções da Fiona Apple têm uma capacidade única de nos fazer sangrar as emoções e os sentimentos. Olhamos para as suas expressões quando canta, escutamos a sua voz e as palavras que são ditas e acreditamos. Piamente. Cegamente. É impossível não o fazer. Como será também impossível não a ver quando cá vier. Toque na sala mais refundida. Na cidade mais improvável. No topo de uma montanha ou no fundo de uma mina. Lá estarei. E sei que não serei o único.

Podia ter escolhido outra canção mas esta foi a que andou a saltitar na minha cabeça mais insistentemente. A letra é puro desejo, prazer e provocação. É desconcertante de tão boa que é.

genius.com/Fiona-apple-hot-knife-lyrics

366 Records

No final de 2015 tive uma ideia. Algo simples. Criar um blog onde durante todos os dias 2016 (tem 366 este ano), iria colocar a capa de um disco. Sem qualquer tipo de regra ou critério, com a única excepção de o ter escutado com regularidade nalgum momento da minha vida. É, sem sobra de dúvida um exercício pessoal, muito pessoal.
Também consigo pensar nele como um exercício de auto-disciplina, porque acreditem que não é fácil de levar algo assim do princípio ao fim. Em primeiro lugar porque arranjar 366 álbuns que me disseram ou dizem alguma coisa não é uma tarefa fácil. Em segundo, porque não é difícil esquecer de o fazer; a vida tende a intrometer-se nestas coisas que são, comparadas com outras, um pouco (ou mesmo muito) supérfulas. Por último lugar, poprque vai, quase inevitavelmente “forçar-me” a ir ao armário buscar aquele “guilty pleasure” que quase ninguém soube que tive. Vejo-o  de certa forma como um pequeno exorcismo. Mas a verdade é que em muitos casos acabo com um sorriso na cara.
Tome-se por exemplo o álbum de hoje (é dia 28 de Fevereiro no momento em que escrevo estas linhas). É o “Challengers”, dos The New Pornographers. Passei horas a ouvi-lo quando foi editado em 2007. Depois esqueci-me dele. Não devia ser assim. Com nomes como AC Newman e Neko Case, isto não devia acontecer. Mas acontece. Esquecemo-nos demasiado facilmente de muita coisa. Felizmente, de vez em quando, reencontramo-las.

Nicolas Godin

No final do ano passado tive a oportunidade de conversar com Nicolas Godin sobre a sua estreia a solo, “Contrepoint”. Este é o resultado dessa conversa, publicado originalmente na Rua de Baixo.

A fotografia é da Graziela Costa.

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NICOLAS GODIN | ENTREVISTA

“O cérebro humano não precisa de discos longos“

“Contrepoint” marca a primeira aventura em nome próprio de Nicolas Godin, metade dos Air, e foi o pretexto para uma conversa em pleno Teatro Tivoli, umas horas antes de subir ao palco.

O Nicolas percebeu há algum tempo que precisava algo mais para além dos Air, e é aí que “Contrepoint” entra. O ponto de partida do álbum é muito interessante (as reinterpretações de Bach por Glen Gould) mas rapidamente percebemos que é muito mais do que isso, muito mais pessoal…

“Adoro conceitos como o início de algo mas, assim que começo, quero esquecer o conceito. Por exemplo, quando fizemos as “Virgens Suicidas”, eu queria que as pessoas escutassem a banda sonora sem que vissem o filme. Neste caso parto de Bach mas quero que as pessoas o escutem sem saber que é Bach. Tento sempre ter uma ideia forte quando começo um projecto mas depois quero esquecer essa ideia. É uma abordagem estranha; tento fazer uma coisa, e o oposto ao mesmo tempo.”

O detalhe em cada canção é espantoso. Quando estamos a escutá-las, estamos a ser presenteados com pequenos detalhes, sons, todos eles cuidadosamente introduzidos. Cada canção é diferente da anterior e cantada em várias línguas.

“Estava farto de Inglês, na realidade. Durante 15 anos da minha carreira, cantei quase sempre em Inglês. Os cantores que me acompanham cantam em Inglês, as palavras são cantadas em Inglês, tudo é em Inglês. Eu adoro Inglês mas a dado momento, como criador, como artista, queria algo novo com esta gravação. E como é que podia fazer algo novo se a língua que eu uso é sempre a mesma? Então disse a mim mesmo que não iria incluir nenhuma canção em Inglês no álbum, porque seria apenas aborrecido.”

Tem inclusivamente Marcelo Camelo a cantar na magnífica «Clara». Como é que isso aconteceu?

“A minha primeira escolha foi o Caetano Veloso. Mas para além de gostar de trabalhar com artistas da minha geração, também gosto de trabalhar com novos artistas e de todos os artistas brasileiros que conheço, penso que o Marcelo tem a melhor voz.”

O título do próprio álbum é, também ele, curioso…

“É a ideia e o seu oposto ao mesmo tempo. O que as pessoas não sabem é que “Contrepoint”, como técnica clássica, quer dizer o oposto do que quer dizer contraponto (a palavra que usamos no dia-a-dia), quando dizemos algo com um ângulo diferente. Já o contraponto na música clássica são diferentes melodias que se juntam para formar um discurso, sempre com o mesmo objectivo. Foi uma técnica nova e eu fiquei surpreendido porque eu toco música pop, onde tocamos um acorde e cantamos uma melodia sobre esse mesmo acorde e eu percebi que com Bach não há acordes, apenas há melodias, e fiquei surpreendido porque não sou um músico clássico e para mim foi novidade.”

É um álbum curto mas ao mesmo tempo, quando o estamos a escutar, parece mais longo. Talvez seja devido às formas como as canções crescem em nós. A duração foi algo premeditado ou ocorreu naturalmente?

“Sim, há muita informação em cada canção, então a dado ponto decidi estabelecer um limite. A partir de certo ponto torna-se demasiada informação para o cérebro e perdemos o foco. Senti que não preciso de demasiada “canção” e apenas preciso da dose certa. A outra coisa é que eu cresci com o vinil. Quando o CD apareceu as pessoas começaram a compor álbuns mais longos e ninguém precisa de álbuns longos. O David Bowie edita álbuns com sete canções, Herbie Hancock, até Fela Kuti, apenas com duas canções, uma em cada lado, então questionei-me: “porquê fazer um álbum longo?”. O cérebro humano não precisa de discos longos.“

Música no Coração

Recuem uns 15 ou 20 anos. Se como eu, estão agora pelos 30 e poucos, então estavam em plena adolescência. Nessa altura a internet ainda não era para todos, os telemóveis estavam apenas a surgir e um álbum quando era escutado era-o de uma ponta à outra. O booklet ficava gasto de tanto ser folheado e lido. As letras eram decoradas e sabidas de trás para a frente em dois tempos. O acto de comprar um álbum era quase religioso, solene. Primeiro implicava um investimento, muitas vezes bem suado de cada um de nós. Depois sabíamos que até à próxima compra podia passar algum tempo. Dávamos maior atenção ao pormenor. Não havia pressa. Era mais fácil perceber quais os álbuns realmente importantes. Aqueles que nos marcam para a vida ou pelo menos parte dela.

Agora isso é algo muito mais difícil de acontecer. Podemos ouvir ontem os álbuns que vão ser lançados amanhã e enquanto os escutamos já foram editados outros tantos… Não pegamos nos álbuns, não folheamos nem aprecíamos o artwork, não os sentimos porque não temos como fazê-lo… Limitamo-nos ouvir um ficheiro que existe quase como que noutro plano de existência. Sabemos que está lá mas não conseguimos pôr-lhe as mãos em cima. É raro ouvir um álbum do início ao fim. Se o som não entra à primeira simplesmente passamos ao próximo. Quanta boa música não nos passa ao lado por fazermos isto? Efémero. É a palavra que ecoa constantemente na cabeça.
Felizmente, no meio do caos, de tempos a tempos surge alguém, alguma banda, com um conjunto de canções com um C maiúsculo, que de alguma forma nos tocam. Muitas vezes nem nos apercebemos disso no imediato. Nem tão pouco passados um ou dois anos mas quando menos esperamos. Quando nos preparamos para escutar esse álbum e de repente, do nada, notamos que estamos a escutá-lo pela milionésima vez mas que vai soar tão bem como se da primeira vez se tratasse. É um momento mágico, daqueles que vale ouro para nós e apenas nós próprios, de tão raro que se tornou.

Iron and Wine – 01-11-2015

Fica desde já o aviso. As palavras que se seguem apenas tentarão fazer jus àquilo que aconteceu ontem (1 de Novembro de 2015) no Tivoli. Escrevi “tentarão” porque há coisas que se sentem mas que é quase impossível colocar sobre a forma de palavras. Há emoções que são tão reais, tão fortes, tão intensas, que não há palavras com força e significado suficiente para as arrancar do coração e da memória.
01-11-2015
Durante 90 minutos o Tivoli foi uma sala de estar. Aconchegante. Reconfortante. Samuel Beam demorou a visitar-nos mas quando o fez foi imenso e sincero. Foi genuíno. Verdadeiro. Bastaram duas guitarras acústicas e um coração com pelo menos o tamanho do Tivoli, porque aquela sala ficou realmente cheia. Não foi preciso alinhamento. Nós pedíamos ou ele tocava o que lhe apetecia. Lembrem-se que estávamos numa sala de estar. Grande, é certo, mas cheia de amigos. Parecia que nos conhecíamos todos e isso não passou despercebido “I have to say… It’s very fun to be able to come all the way across the ocean to a room full of smiling happy people”.
Domingo é dia santo para muitos. Ali também foi. Cada canção, uma oração acompanhada em silêncio. Um silêncio sincero, respeitoso e venerador para com aquela figura com cabelo desgranhado e longa barba. Houve canções antigas, outras mais recentes e até uma a estrear («The Backwater Birds»). Algumas saíram mesmo do fundo do báu e Beam, ao ensaiar os acordes iniciais, era como se lhes estivesse a limpar o pó. Depois há aquela voz. Equilibrada para cada momento. Segura. Com um falsete estupendo. Cada verso mexe connosco. Uns fazem-nos sorrir. Outros submergem-nos em tristeza. Outros em saudade. Há amor. Há medo. Emoções reais, que podiam ser também as minhas ou de qualquer outra pessoa. As emoções sucedem-se mas nunca, nunca desaparecem.
Sem qualquer ordem ou tipo de preferência (com excepção da última canção da lista, porque foi um momento arrepiante no melhor dos sentidos) , estas foram algumas das canções que se fizeram escutar no Tivoli. «Upward Over The Mountain», «Jesus The Mexican Boy», «The Trapeze Swinger», «He Lays In The Reins», «Caught In The Briars», «Tree By The River», «Rabbit Will Run», «Love Vigilantes», «Jezebel», «Boy With A Coin», «Naked As We Came» ou «Flightless Bird, American Mouth» (esta apenas à capella e mesmo a fechar a noite memorável). São experiências e histórias de vida que ali foram desfilando.
No final apenas me ocorria uma palavra… Obrigado.