Memória de Peixe – Arcadia Garden

A ideia na génese dos Memória de Peixe tem tanto de simples como de genial e original. As canções são criadas, camada sobre camada, com base em loops de 8 segundos, que ora se repetem, ora são substituídos por outros. Daí a metáfora na qual o nome da banda se baseia: a curta memória de peixe. O álbum de estreia homónimo, foi editado 2011. Era excelente. Ainda o é. Digo é porque aquelas canções continuam a fazer sentido e a dar prazer ouvir. Mas a verdade é que já ansiava or algo novo. A espera terminou. Finalmente. Esta semana, Miguel Nicolau, o estratega-mor, e Marco Franco, o baterista de serviço, partilharam “Himiko Cloud”. E neste momento é mais do que justo colocar a questão: valeu a pena todo este longo tempo de espero? Resposta curta: SIM! Resposta mais elaborada: sim, é um álbum mais complexo, mais elaborado, repleto de pequenos pormenores. É daqueles álbuns que pode e deve ser ouvido com uns bons headphones na cabeça, porque só assim vamos conseguir apreciar todos os pequenos pormenores que dele fazem parte. Só assim vamos conseguir escutar tudo mas realmente tudo. E só assim vamos continuar a descobrir mais apontamentos, audição após audição.

A segunda questão que poderá assolar as vossas mentes pode bem ser o que quer dizer “Himiko Cloud”. O nome é catchy, sem dúvida. Podemos encontrar dois significados distintos; um científico e outro com origem nas mentes criativas dos Memória de Peixe. De um ponto de vista científico, uma Himiko Cloud, é uma nuvem de gás nebulosa, que se pensa ser uma protogaláxia apanhada no acto de formação. Podem ler mais sobre o tema aqui e aqui. No contexto que nos interessa, Himiko é o nome de um peixe anti-gravidade, que agrega todo o conceito em torno do álbum. Segundo os próprios “é um mundo de fantasia, aventuras, bosses finais, super-heróis, cometas solitários, odisseias espaciais e quarks zangados que se apaixonam por píxeis mortos.”.

«Arcadia Garden», a canção cujo vídeo podem ver de seguida, é apenas o início mas é um belo início. Venham mais.

Lauryn Hill – Everything Is Everything

A 25 de Agosto de 1998 foi lançado um álbum que ainda hoje é tido por muita gente, como uma obra-prima. Um conjunto de canções que continua a assombrar a mulher que as compôs. Passaram 18 anos e “The Miseducation of Lauryn Hill” continua a ser um álbum com a capacidade de marcar uma geração e de ganhar novos adeptos para a causa. Os géneros musicais que o álbum toca não são de todo aqueles pelos quais me “movo” habitualmente o que, por si só, pode e deve ser visto como um claro sinal do impacto que este conjunto de canções conseguiu ter naquele longíquo Verão de 1998. Escutamos Neo Soul, R&B, Hip Hop, Soul ou Reggae. Somos siderados pela forma como os géneros se casam e interligam de forma perfeita, enquanto Lauryn Hill aborda temas como a sua gravidez, os conflitos que ocorreram dentro dos Fugees e os sempre omnipresentes Deus e Amor (tem tanto direito a uma maiúscula como a palavra anterior!).

Estou a escrever esta linhas porque “tropecei” no vídeo que se segue. Infelizmente a nossa memória revela-se muito curta mais vezes do que devia e 18 anos é muito tempo. É uma sensação óptima perceber que, passados estes anos todos, as palavras que Lauryn Hill canta, continuam a fazer sentido. A ter a capacidade de ecoar cá dentro. É uma demonstração cabal da sua força mas também é uma prova que, mesmo volvidos 18 anos, há coisas em nós que não mudam e se mantêm fieis.

Everything Is Everything
What is meant to be, will be
After winter, must come spring (must come spring)
Change, it comes eventually
Everything Is Everything
What is meant to be, will be
After winter, must come spring (must come)
Change, it comes eventually

I wrote these words (I wrote these words) for everyone who struggles in their youth
Who won’t accept deception, in instead of what is truth
It seems we lose the game
Before we even start to play
Who made these rules? (Who made these rules?)
We’re so confused (We’re so confused)
Easily led astray
Let me tell ya that…

www.lauryn-hill.com
genius.com/Lauryn-hill-everything-is-everything-lyrics

PJ Harvey – The Community of Hope

Escolhi a primeira canção de “The Hope Six Demolition Project”, «The Community of Hope» mas podia ter escolhido qualquer outra. É que as onze canções que fazem parte do décimo primeiro álbum de estúdio de Polly Jean Harvey são todas elas um relato, uma denúncia,, uma partilha, uma experiência de vida. A veia política de PJ tem vindo a ganhar força e atinge o seu pico (até ao momento) aqui, fruto do contacto e tempo passado com refugiados e em zonas de conflito como o Kosovo e o Afganistão, bem como o contacto com bairro de Ward 7, em Washington DC e sobre o qual esta canção versa.

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São palavras duras, as que PJ Harvey canta e que não se livraram de críticas e polémica por parte dos próprios habitantes do próprio bairro, pela perspectiva sombria que a canção traça, enquanto ignora o que de bom por lá se passa. Independentemenre disso, nada belisca o facto de que estamos perante uma curta mas belíssima canção. E é só a primeira de onze.

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Here’s the Hope Six Demolition Project
Stretching down to Benning Road
A well-known “pathway of death”
At least that’s what I’m told
And here’s the one sit-down restaurant
In Ward Seven, nice
OK, now this is just drug town, just zombies
But that’s just life

Angel Olsen – Shut Up Kiss Me

Sou capaz de passar horas a ouvir a Angel Olsen cantar. Porquê, poderão perguntar. É simples. Pela voz que nos agarra desde o primeiro momento. Pela presença. Pelas palavras que canta. Parecem versos simples. Daqueles com que nos conseguimos identificar num dado momento das nossas vidas. Mas a verdade é que as palavras tiveram de ser combinadas. Os versos tiveram de ganhar forma. Chamar-lhe menina bonita do rock alternativo (malditos rótulos!) é de uma tremenda injustiça. Neste momento é uma certeza e uma das mais talentosas escritoras de canções norte-americana.

«Shut Up Kiss Me» é um canção tremenda. A matriz é rock, a essência é o amor. A forma como Olsen quase atropela a cantar o refrão é deliciosa.

Shut up kiss me
Hold me tight
Shut up kiss me
Hold me tight
Shut up kiss me
Hold me tight

Porque o amor é assim, não é? Intenso, mesmo quando só a um.

angelolsen.com
genius.com/Angel-olsen-shut-up-kiss-me-lyrics

Nick Cave & The Bad Seeds – I Need You

“Skeleton Tree” é um tremendo murro no estômago. É um testemunho vivo de dor colocada sobre a forma de palavras. É sobre perda e sobre como lidar com ela. Ou tentar. Sobre como viver com ela. Ou tentar. É um álbum assustadoramente belo sobre a morte. É o álbum que nunca deveria ter sido composto.

Em Skeleton Tree existem nove grandes canções. I Need You é uma delas. Começa ao som do teclado de Warren Ellis, que lhe confere reverência e profundidade. Depois a voz de Nick Cave faz o resto. Por vezes quase no limiar do embargado. Grave. Dolorosa. Partilhamos a sua dor.

Nothing really matters, nothing really matters when the one you love is gone
You’re still in me, baby

I need you
In my heart, I need you

http://www.nickcave.com
http://genius.com/Nick-cave-and-the-bad-seeds-i-need-you-lyrics

Cass McCombs – Opposite House

Não há pessoas perfeitas. Isso é um mito. As canções perfeitas são raras. Cass McCombs não as sabe fazer más e acreditem que isso vale ouro nos dias que correm, onde há tantas canções novas a aparecer a todo o momento e a serem esquecidas com a mesma velocidade.

«Opposite House» reúne qualidades/ingredientes tão distintos e apelativos como aquela guitarra que já é imagem de marca de Cass McCombs, a voz de Angel Olsen (<3) nos coros para nos aquecer a alma, aquelas cordas tão pouco habituais mas que soam bem mas bem (venham mais!) e as letras que nos fazem pensar no seu real sentido e nos sentimentos que encerram em si. Até há tempo para nos explicar como funciona um iman: “How do you make a magnet? / You create a potential / Just an old refrigerator magnet / Repelled and pulled / Ooohhhh why so needy? / Tell me why”.

No final da canção, McCombs, canta “Why does it rain inside?”; não consigo deixar de pensar que este último verso da canção sumariza de forma perfeita muito do que se passa à nossa volta. Apercebemo-nos dos problemas, vemo-los materializarem-se diante de nós e à nossa volta, a ter impacto cada vez mais directo nas nossas vidas e, mesmo assim, ficamos impávidos e serenos a ver tudo acontecer, sem nada fazer.

cassmccombs.com
genius.com/Cass-mccombs-opposite-house-lyrics

Radiohead – A Moon Shaped Pool

Gosto dos Radiohead. Não os adoro. Esse estatuto de reverência reservo-o para outros nomes que não vem ao caso aqui. Mas respeito muito estes rapazes. Em primeiro porque não se repetem, o que é realmente admirável nos tempos que correm e algo que gosto particularmente numa banda. São senhores dos seus narizes. Verdade seja dita que têm tudo para o ser mas também não é menos verdade que poderiam optar por outros caminhos ou abordagens tidos por muitos como mais fáceis.

Tal como meio mundo, estou a começar a ouvir o “A Moon Shaped Pool”. A opinião não está por isso ainda formada mas desde logo que salta à vista a urgência do álbum. Há uma paranóia palpável e latente nestas canções. Talvez por esse motivo o álbum soe mais orgânico; há menos elementos electrónicos. Talvez reflexo de uma necessidade de contrarir eses sentimentos. Talvez uma forma de dizer que o caminho que estamos a seguir como sociedade não nos vai levar a nenhum sítio bom e que é urgente dar alguns passos atrás e seguir noutra direcção antes que seja tarde de mais.

Não é imediato. Está repleto de pequenas subtilezas e detalhes que se descobrem audição após audição. Agora vou continuar a descobri-lo e a conhecê-lo…

Radiohead – Burn the Witch

É impressionante a capacidade que os Radiohead mantém para nos surpreender. Não pela manobra de marketing, mais do que óbvia, mas pelo que se seguiu, e que é o que importa realmente. Refiro-me à canção. E que canção. «Burn the Witch» é Radiohead. A dada altura Thom Yorke canta:

Red crosses on wooden doors
And if you float you burn
Loose talk around tables
Abandon all reason
Avoid all eye contact
Do not react
Shoot the messengers

Antes de se lançar de corpo e alma no refrão:

Burn the witch
Burn the witch
We know where you live
We know where you live

A letra é um reflexo perfeito dos tempos conturbados em que vivemos actualmente. É uma chamada de atenção… E depois há as cordas que conferem uma dicotomia sublime à canção: ora lhe conferem um ornamento grandioso, ora a mergulham numa escuridão e num tensão desconcertantes. Não é de todo simples mas eles fazem-no, e em apenas 3 minutos e 41 segundos.

genius.com/Radiohead-burn-the-witch-lyrics

Okay Kaya – Damn, Gravity

Temos uma relação forte com a gravidade. Está sempre presente. Pronta a atirar-nos ao chão se não a contrariarmos. Dá-nos as rugas que vão começando a surgir com o acumular dos anos. Mas há momentos em que a gravidade desaparece.

Quando estamos apaixonados.

Naqueles momentos em que dois corpos desafiam tudo e parecem flutuar. Não há esquerda nem direita. Não há cima nem baixo. Nem norte, nem sul. Somos nós que definimos o nosso norte. Mas por vezes, a partir de um dado momento, um dos corpos flutua para longe e depois… depois, voltamos a sentir todo o peso da gravidade…

okay-kaya.com
genius.com/Okay-kaya-damn-gravity-lyrics

Chairlift

No final do ano passado tive a oportunidade de conversar durante alguns minutos com Caroline Polachek e Patrick Wimberly antes do concerto que deram no Coliseu dos Recreios em Lisboa. O artigo foi publicado originalmente na Rua de Baixo.

Chairlift | Entrevista

Os Chairlift acabaram de lançar álbum novo. Chama-se “Moth” e nós falámos com a dupla pouco tempo antes de subirem ao palco do Coliseu durante o Vodafone Mexefest. Da curta conversa ficou vincada a ambição e a coragem de quem não se conforma com o que tem e que procura sempre fazer melhor, fazer diferente, correr riscos. Eis Caroline Polachek e Patrick Wymberly em discurso directo.

Vão lançar um novo álbum em Janeiro, mais de três anos depois de “Something”. Podem falar-nos um pouco sobre ele? Qual a história por detrás do título?

[Caroline Polachek] “Moth” vem de uma das canções do álbum mas tem, de certa forma, um significado maior, mais abrangente como título do álbum. Não se vêem traças (“moths”) em Nova Iorque muito habitualmente e quando as vemos sentimo-nos como que um pouco preocupados com elas porque sabemos que não vão durar muito tempo. Mas por outro lado as traças têm uma extraordinária capacidade de persistência, e continuam a fazer coisas que nem são necessariamente boas para elas… [risos] São no fundo criaturas belas e frágeis e eu gosto particularmente dessa ideia de ser uma coisa sensível e suave, num sítio duro e complicado. E é dessa direcção que o nosso disco vem… de uma ideia de persistência e de vulnerabilidade.

O primeiro single, «Ch-Ching» é extremamente dançável. É uma daquelas canções em que é quase impossível ficar sem bater pelo menos o pé. É um reflexo do álbum ou é apenas um momento?

[Patrick Wimberly] É apenas um momento do disco. Como a Caroline descreveu antes… [risos]

[CP] Os nossos álbuns são quase como playlists… há extremos e canções que ficam algures pelo meio. Se te lembrares do nosso último disco, não tínhamos canções como a «Amanaemonesia». Gostamos de evoluir, mudar, tocar e recorrer a sons diferentes. Mas depois de se escutar algumas vezes o álbum, penso que se conseguia perceber que a «Amanaemonesia» estava de alguma forma ligada ao resto do disco, embora fosse um momento extremo. Gostamos de surpreender as pessoas…

Que têm ouvido ultimamente? Influenciou-vos de alguma forma durante o processo criativo do álbum?

[PW] Ultimamente tenho ouvido Celia Cruz. É uma artista fabulosa de salsa, mas em termos de influência para o álbum tenho ouvido Timbaland… tudo o que ele fez nos últimos anos acabou de alguma forma por influenciar…

Têm incorporado outras formas de arte como o vídeo e a dança nas vossas performances (também muito presentes no teu trabalho como Ramona Lisa). Vêem-no como um complemento do vosso trabalho ou é na realidade parte daquilo que são como artistas?

[CP] É um pouco de ambos. É um complemento e uma grande parte do todo. Penso que é da responsabilidade de um artista providenciar uma imagem para a sua música, porque se não o fizermos nós, alguém o fará e penso que se tens uma visão na tua cabeça e não a pões cá para fora, não estás a ser leal para contigo próprio e para com a tua canção.

O que poderemos esperar dos Chairlift em palco, agora que há um álbum novo mesmo à porta?

CP: Em palco vamos ter uma nova banda. A cada álbum reformulamos por completo o nosso espectáculo ao vivo. No primeiro disco éramos três em palco. No segundo disco éramos cinco pessoas e agora vamos ser quatro mas com um alinhamento sempre diferente. Vamos ser acompanhados por um fantástico músico de jazz chamado Danny Meyer, no saxofone, e Starchild [nota de rodapé: que também colaborou recentemente com Dev Hynes e Solange Knowles] nas vozes, percussão e guitarra. O Patrick… eu vejo-o como o piloto de uma nave espacial. Ele é como uma “beat station”. O guardião do groove… Basicamente ele vai estar a remixar as canções ao vivo.