Iron and Wine – 01-11-2015

Fica desde já o aviso. As palavras que se seguem apenas tentarão fazer jus àquilo que aconteceu ontem (1 de Novembro de 2015) no Tivoli. Escrevi “tentarão” porque há coisas que se sentem mas que é quase impossível colocar sobre a forma de palavras. Há emoções que são tão reais, tão fortes, tão intensas, que não há palavras com força e significado suficiente para as arrancar do coração e da memória.
01-11-2015
Durante 90 minutos o Tivoli foi uma sala de estar. Aconchegante. Reconfortante. Samuel Beam demorou a visitar-nos mas quando o fez foi imenso e sincero. Foi genuíno. Verdadeiro. Bastaram duas guitarras acústicas e um coração com pelo menos o tamanho do Tivoli, porque aquela sala ficou realmente cheia. Não foi preciso alinhamento. Nós pedíamos ou ele tocava o que lhe apetecia. Lembrem-se que estávamos numa sala de estar. Grande, é certo, mas cheia de amigos. Parecia que nos conhecíamos todos e isso não passou despercebido “I have to say… It’s very fun to be able to come all the way across the ocean to a room full of smiling happy people”.
Domingo é dia santo para muitos. Ali também foi. Cada canção, uma oração acompanhada em silêncio. Um silêncio sincero, respeitoso e venerador para com aquela figura com cabelo desgranhado e longa barba. Houve canções antigas, outras mais recentes e até uma a estrear («The Backwater Birds»). Algumas saíram mesmo do fundo do báu e Beam, ao ensaiar os acordes iniciais, era como se lhes estivesse a limpar o pó. Depois há aquela voz. Equilibrada para cada momento. Segura. Com um falsete estupendo. Cada verso mexe connosco. Uns fazem-nos sorrir. Outros submergem-nos em tristeza. Outros em saudade. Há amor. Há medo. Emoções reais, que podiam ser também as minhas ou de qualquer outra pessoa. As emoções sucedem-se mas nunca, nunca desaparecem.
Sem qualquer ordem ou tipo de preferência (com excepção da última canção da lista, porque foi um momento arrepiante no melhor dos sentidos) , estas foram algumas das canções que se fizeram escutar no Tivoli. «Upward Over The Mountain», «Jesus The Mexican Boy», «The Trapeze Swinger», «He Lays In The Reins», «Caught In The Briars», «Tree By The River», «Rabbit Will Run», «Love Vigilantes», «Jezebel», «Boy With A Coin», «Naked As We Came» ou «Flightless Bird, American Mouth» (esta apenas à capella e mesmo a fechar a noite memorável). São experiências e histórias de vida que ali foram desfilando.
No final apenas me ocorria uma palavra… Obrigado.

Rodigo Amarante – Nada Em Vão

“Cavalo” deu os primeiros passos ainda em 2013. É impressionante perceber que hoje, mais de 2 anos depois, continua a ter peso por entre o que se ouve por aqui. É que é bom. Mesmo bom. Honesto. Transversal e transatlântico. Perto de genial. Simples e complexo. Maduro. São 37 minutos do mais puro génio de Rodrigo Amarante e é caso para dizer que é mesmo «Nada Em Vão».

Ought – Men for Miles

Ter um identidade com apenas alguns anos de existência e menos de uma mão cheia de edições entre EPs e LPs não é para todos mas é para os Ought. Eu digo que a culpa é das guitarras. Frenéticas, inconformadas, disciplinadamente indisciplinadas, precisas, irreverentes. São únicas. São ímpares. São deliciosas de escutar. «Men for Miles» até começa apenas ao som da bateria e dos teclados mas isso só dura 11 segundos…

cstrecords.com/ought/
http://genius.com/Ought-men-for-miles-lyrics

Lower Dens – Ondine

Os Lower Dens têm muito provavelmente um dos melhores álbuns do ano. Coeso do primeiro ao último segundo e com uma Jana Hunter numa forma e pujança tremendas. Por aqui, quando 2015 chegar ao fim, vai ser um dos que mais vezes foi escutado. Será no mínimo sintomático de algo. É uma pena que canções como estas permaneçam no anonimato para tantos… Ou talvez não… A verdade é que são pequenos tesouros como este que nos fazem manter aquele brilhozinho nos olhos. Aquele sentimento de que aquele álbum é quase quase só “nosso”. É um egoísmo bom.

Braids – Miniskirt

De tempos a tempos surge um álbum de electrónica que me passa uma rasteira, daquelas que me apanham completamente desprevenido… Pode ser uma voz. Pode ser a música. Podem ser as letras. Pode ser tudo isto. Há algo suficientemente forte que se agarra com tudo o que tem e não me larga. Os Braids com o seu “Deep in the Iris” são um desses casos. Pela voz de Raphaelle Standell-Preston, que assenta que nem uma luva em cada uma das canções, todas elas com pormenores deliciosos, e pelas letras, plenas de mensagem e significado, como esta «Miniskirt».
braidsmusic.com
genius.com/Braids-miniskirt-lyrics

Nadine Shah – Fool

Talvez seja heresia aquilo que vou escrever mas vou fazê-lo na mesma. Quando escuto esta senhora lembro-me da PJ Harbey e da Anna Calvi. É rock a fervilhar no sangue e uma voz forte e cheia de personalidade. É uma força imensa que não pode ser contida. Esta «Fool» é uma demonstração cabal disso mesmo, lírica e musicalmente. “You, my sweet, are a fool / You, my sweet, are plain and weak / Go let the other girls / Indulge the crap that you excrete”.

nadineshah.co.uk
genius.com/Nadine-shah-fool-lyrics