Juçara Marçal – Velho Amarelo

Por vezes estamos a andar pela rua e tropeçamos. Porque há um buraco ou há uma pedra solta ou porque somos pura e simplesmente desastrados. Adoro quando isso acontece com uma canção. Quando, do nada, “tropeçamos” numa. Daquelas deliciosas. Que nos agarram e se enrolam e se entranham e se agarram. Que nem velcro. Que nem cola. Seja porque tem um acorde irresistível. Porque há qualquer coisa na voz que escutamos. Porque as palavras que são cantadas mexem connosco, umas vezes para melhor e outras para pior. Juçara Marçal e o seu «Velho Amarelo» são um desses casos. Primeiro por causa das guitarras que incutem um ritmo de samba eléctrico mas num registo mais lento, quase hipnótico. Depois pela voz da brasileira de 52 anos e formada em jornalismo, que é mais um daqueles casos de talento que surge quando menos se espera e prova viva que o talento não tem idade (e que continue assim, se faz favor!). Finalmente, pelas palavras que escutamos… A morte é uma presença constante na vida e em «Velho Amarelo» é esmagadora, na voz de um velho que quer ditar os termos em que quer morrer mesmo que tal seja algo para além do seu controlo. “Quero morrer num dia breve / Quero morrer num dia azul / Quero morrer na América do Sul”.

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Torres – Sprinter

Envelhecer faz-nos bem. Se calhar, quando somos mais novos, não pensamos exactamente dessa forma mas depois, de uma forma natural mas não menos estranha, vamo-nos apercebendo o quão errados estávamos. Tornamo-nos mais ponderados. Mais acertivos. Ganhamos perspectiva. Tornamo-nos mais experientes. Escolhemos melhor as palavras que queremos dizer. Foi algo do género que aconteceu com Torres, do primeiro para o segundo álbum. Torres é nome de palco de Mackenzie Scott e “Sprinter” o título do seu segundo álbum. Um álbum que é corajoso pela forma como Torres se expõe. Que é rock sem nunca perder o controlo ou cometer qualquer excesso; quando a guitarra deve mandar, ela manda; quando a voz de Torres deve soar frágil, soa; e quando deve ser forte, também o é. Mas também há coisas que não se alteram com a idade. Continuamos a sofrer perdas. A falhar. Ganhamos cabelos brancos. Ganhamos rugas. Tropeçamos e levantamo-nos, umas vezes mais rapidamente do que outras. E vivemos mais devagar e com mais calma porque percebemos que não estamos numa prova de velocidade mas numa maratona. Isso também se sente em “Sprinter”, o álbum, e «Sprinter» a canção: “I was a sprinter then / Living decedent”.

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Iron and Wine – 01-11-2015

Fica desde já o aviso. As palavras que se seguem apenas tentarão fazer jus àquilo que aconteceu ontem (1 de Novembro de 2015) no Tivoli. Escrevi “tentarão” porque há coisas que se sentem mas que é quase impossível colocar sobre a forma de palavras. Há emoções que são tão reais, tão fortes, tão intensas, que não há palavras com força e significado suficiente para as arrancar do coração e da memória.
01-11-2015
Durante 90 minutos o Tivoli foi uma sala de estar. Aconchegante. Reconfortante. Samuel Beam demorou a visitar-nos mas quando o fez foi imenso e sincero. Foi genuíno. Verdadeiro. Bastaram duas guitarras acústicas e um coração com pelo menos o tamanho do Tivoli, porque aquela sala ficou realmente cheia. Não foi preciso alinhamento. Nós pedíamos ou ele tocava o que lhe apetecia. Lembrem-se que estávamos numa sala de estar. Grande, é certo, mas cheia de amigos. Parecia que nos conhecíamos todos e isso não passou despercebido “I have to say… It’s very fun to be able to come all the way across the ocean to a room full of smiling happy people”.
Domingo é dia santo para muitos. Ali também foi. Cada canção, uma oração acompanhada em silêncio. Um silêncio sincero, respeitoso e venerador para com aquela figura com cabelo desgranhado e longa barba. Houve canções antigas, outras mais recentes e até uma a estrear («The Backwater Birds»). Algumas saíram mesmo do fundo do báu e Beam, ao ensaiar os acordes iniciais, era como se lhes estivesse a limpar o pó. Depois há aquela voz. Equilibrada para cada momento. Segura. Com um falsete estupendo. Cada verso mexe connosco. Uns fazem-nos sorrir. Outros submergem-nos em tristeza. Outros em saudade. Há amor. Há medo. Emoções reais, que podiam ser também as minhas ou de qualquer outra pessoa. As emoções sucedem-se mas nunca, nunca desaparecem.
Sem qualquer ordem ou tipo de preferência (com excepção da última canção da lista, porque foi um momento arrepiante no melhor dos sentidos) , estas foram algumas das canções que se fizeram escutar no Tivoli. «Upward Over The Mountain», «Jesus The Mexican Boy», «The Trapeze Swinger», «He Lays In The Reins», «Caught In The Briars», «Tree By The River», «Rabbit Will Run», «Love Vigilantes», «Jezebel», «Boy With A Coin», «Naked As We Came» ou «Flightless Bird, American Mouth» (esta apenas à capella e mesmo a fechar a noite memorável). São experiências e histórias de vida que ali foram desfilando.
No final apenas me ocorria uma palavra… Obrigado.

Rodigo Amarante – Nada Em Vão

“Cavalo” deu os primeiros passos ainda em 2013. É impressionante perceber que hoje, mais de 2 anos depois, continua a ter peso por entre o que se ouve por aqui. É que é bom. Mesmo bom. Honesto. Transversal e transatlântico. Perto de genial. Simples e complexo. Maduro. São 37 minutos do mais puro génio de Rodrigo Amarante e é caso para dizer que é mesmo «Nada Em Vão».

Ought – Men for Miles

Ter um identidade com apenas alguns anos de existência e menos de uma mão cheia de edições entre EPs e LPs não é para todos mas é para os Ought. Eu digo que a culpa é das guitarras. Frenéticas, inconformadas, disciplinadamente indisciplinadas, precisas, irreverentes. São únicas. São ímpares. São deliciosas de escutar. «Men for Miles» até começa apenas ao som da bateria e dos teclados mas isso só dura 11 segundos…

cstrecords.com/ought/
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Lower Dens – Ondine

Os Lower Dens têm muito provavelmente um dos melhores álbuns do ano. Coeso do primeiro ao último segundo e com uma Jana Hunter numa forma e pujança tremendas. Por aqui, quando 2015 chegar ao fim, vai ser um dos que mais vezes foi escutado. Será no mínimo sintomático de algo. É uma pena que canções como estas permaneçam no anonimato para tantos… Ou talvez não… A verdade é que são pequenos tesouros como este que nos fazem manter aquele brilhozinho nos olhos. Aquele sentimento de que aquele álbum é quase quase só “nosso”. É um egoísmo bom.

Braids – Miniskirt

De tempos a tempos surge um álbum de electrónica que me passa uma rasteira, daquelas que me apanham completamente desprevenido… Pode ser uma voz. Pode ser a música. Podem ser as letras. Pode ser tudo isto. Há algo suficientemente forte que se agarra com tudo o que tem e não me larga. Os Braids com o seu “Deep in the Iris” são um desses casos. Pela voz de Raphaelle Standell-Preston, que assenta que nem uma luva em cada uma das canções, todas elas com pormenores deliciosos, e pelas letras, plenas de mensagem e significado, como esta «Miniskirt».
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Nadine Shah – Fool

Talvez seja heresia aquilo que vou escrever mas vou fazê-lo na mesma. Quando escuto esta senhora lembro-me da PJ Harbey e da Anna Calvi. É rock a fervilhar no sangue e uma voz forte e cheia de personalidade. É uma força imensa que não pode ser contida. Esta «Fool» é uma demonstração cabal disso mesmo, lírica e musicalmente. “You, my sweet, are a fool / You, my sweet, are plain and weak / Go let the other girls / Indulge the crap that you excrete”.

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