Ty Segall – Orange Color Queen

Ty Segall tem 29 anos de idade. Tem 8 álbuns em nome próprio, um com a sua Ty Segall Band e inúmeras singles, EP’s e colaborações com outras bandas. Não pára e é daqueles que não sabe fazer nada mal. Quase que enerva (na realidade não enerva nada mas não interessa!). E agora prepara-se para lançar o 9º álbum, novamente um homónimo (como já tinha acontecido com o álbum de estreia). A primeira canção mostra-nos uma faceta mais calma de Segall, longe daquele registo mais rock-punk-garage-psicadélico-sujo que é seu apanágio regular. Desta vez, «Orange Color Queen» – assim se chama a canção – parece que sempre existiu. Tem um refrão orelhudo, uma estrutura clássica. É uma canção quase pop e viciante.

A dada altura, Segall canta “You beautiful, lazy, orange-color lady”; o amor deixa-nos assim, a flutuar e com Ty não é diferente. A canção é dedicada à sua namorada que tem cabelo, sim, isso mesmo… laranja!

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Arcade Fire – In The Backseat

Foi em 2005, durante uma viagem de autocarro entre Lagos e Sines. Não tenho uma ideia exacta de que dia era mas sei que foi no final de Agosto. O Paredes de Coura já tinha terminado e os Arcade Fire tinham dado aquele concerto épico que ficou nos anais da história. Não o vi. Aliás, nessa altura ainda estava a perceber ao certo se os queria continuar a ouvir ou não e nessa viagem aconteceu algo que ainda hoje não sei bem explicar. Um dos álbuns que tinha no magnífico leitor de MP3 com 128 ou 256 megas – já não me recordo ao certo de quanto espaço tinha – era o “Funeral”. Faltavam apenas 6 minutos e 40 segundos para o álbum chegar ao fim, ou seja, restava uma canção. Uma canção que é diferente de todas as outras. Após nove canções épicas, surge uma que é delicada e suave, mas cujos arranjos e pormenores não ficam a dever, em nada, às restantes. Esta canção é cantada quase como um sussurro, pela voz de Régine Chassagne. Chama-se «In The Backseat». Quando começou, algo se passou cá dentro. À volta tudo parou. O volume subiu mais um pouco. Um arrepio na espinha, daqueles vindos mesmo lá do fundo subiu pelas costas acima. A canção fala sobre o medo intenso de guiar que algumas pessoas têm. Fá-lo com poucas palavras mas fá-lo de forma perfeita. Cada verso tem a sua conta, peso e medida.

I like the peace
In the backseat
I don’t have to drive
I don’t have to speak
I can watch the countryside…

Naquele momento e até ao final da viagem a canção ficou em repeat. Naquele momento fez-se clique. E ainda hoje faz. A fotografia que acompanha este texto é do Anton Corbijn. Se ainda não conhecem o trabalho dele, fica aqui a sugestão.

arcadefire.com/site/

 

Cass McCombs – Opposite House

Não há pessoas perfeitas. Isso é um mito. As canções perfeitas são raras. Cass McCombs não as sabe fazer más e acreditem que isso vale ouro nos dias que correm, onde há tantas canções novas a aparecer a todo o momento e a serem esquecidas com a mesma velocidade.

«Opposite House» reúne qualidades/ingredientes tão distintos e apelativos como aquela guitarra que já é imagem de marca de Cass McCombs, a voz de Angel Olsen (<3) nos coros para nos aquecer a alma, aquelas cordas tão pouco habituais mas que soam bem mas bem (venham mais!) e as letras que nos fazem pensar no seu real sentido e nos sentimentos que encerram em si. Até há tempo para nos explicar como funciona um iman: “How do you make a magnet? / You create a potential / Just an old refrigerator magnet / Repelled and pulled / Ooohhhh why so needy? / Tell me why”.

No final da canção, McCombs, canta “Why does it rain inside?”; não consigo deixar de pensar que este último verso da canção sumariza de forma perfeita muito do que se passa à nossa volta. Apercebemo-nos dos problemas, vemo-los materializarem-se diante de nós e à nossa volta, a ter impacto cada vez mais directo nas nossas vidas e, mesmo assim, ficamos impávidos e serenos a ver tudo acontecer, sem nada fazer.

cassmccombs.com
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Okay Kaya – Damn, Gravity

Temos uma relação forte com a gravidade. Está sempre presente. Pronta a atirar-nos ao chão se não a contrariarmos. Dá-nos as rugas que vão começando a surgir com o acumular dos anos. Mas há momentos em que a gravidade desaparece.

Quando estamos apaixonados.

Naqueles momentos em que dois corpos desafiam tudo e parecem flutuar. Não há esquerda nem direita. Não há cima nem baixo. Nem norte, nem sul. Somos nós que definimos o nosso norte. Mas por vezes, a partir de um dado momento, um dos corpos flutua para longe e depois… depois, voltamos a sentir todo o peso da gravidade…

okay-kaya.com
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case/lang/veirs

O passar do tempo retirou-me um pouco aquele entusiasmo quase infantil (num bom sentido, atenção!) que sentia quando era anunciado um álbum novo de alguém de quem gostava. No entanto, ontem fui invadido por essa sensação novamente. Teve tanto de inesperado, como de sincero quando, a meio da tarde, recebo a mailing list da Neko Case a anunciar um álbum juntamente com a Laura Veirs e a KD Lang.

Happy, happy! Joy, joy!

Se é verdade que não conheço muito da obra de KD Lang (algo que vai com certeza mudar nos próximos tempos) o mesmo não acontece com Veirs e a Case, que estão bem presentes aqui no coração (talvez a Neko esteja um bocadinho mais fundo – são coisas mais fortes do que nós e que por muito que se tente não conseguimos controlar).

O primeiro avanço chama-se «Atomic Number» e o que salta logo à vista é a voz de Neko Case, magnífica como sempre e capaz de causar arrepios até à mais infíma particula deste ser.

“Latin words across my heart / Symbols of infinity / Elements so pure / Atomic number”

www.caselangveirs.com
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Iron and Wine

No dia 1 de Novembro do ano passado, quem esteve no Teatro Tivoli em Lisboa, teve a oportunidade de presenciar um concerto único, perfeito, inesquecível. Falo de Iron and Wine. Naquela noite, Sam Beam acompanhado apenas da guitarra ofereceu-nos algo que ficará para sempre marcado em cada um dos presentes. Mas a memória é mais efémera para uns do que para outros por isso aqui ficam duas canções que ali foram partilhadas (sim, o que se passou foi uma partilha: Sam partilhou as suas canções e nós entegámo-nos a cada uma delas); uma nova (talvez ainda não na sua forma final, por isso) e um cover.

 

A primeira canção chama-se «Backwater Birds» que, como o próprio Beam explica, é sobre pessoas más: “In the United States a backwater it’s like a place where bad country people live… I don’t know if that makes sense to you but I definitely does to me”. Fechem os olhos enquanto se deixam levar para guitarra e as palavras.

O cover, «Love Vigilantes», é um original dos New Order e escolhi-o porque é uma canção que encerra em si uma montanha russa de emoções. A alegria de saber que se vai regressar a casa. O amor pela nossa família. E depois o sentimento de perda. De angústia. De dor. Triste, mas não menos bela por isso.

Chairlift – Crying in Public

Confesso que quando vi os Chairlift em palco no final de Novembro de 2015, poucas horas depois de ter estado à conversa com a banda e de saber de antemão que o concerto que iriam apresentar no Coliseu ia-se basear maioritariamente no novo álbum, fiquei com algum receio. É sabido que, de uma forma geral, a resistência à mudança é algo intrínseco à maioria de nós. Chamem-lhe natureza humana se quiserem. O concerto veio, de certa forma, confirmar esses receios. Do lado do público alguma apatia face ao desconhecimento das canções e à grande mudança operada na sonoridade do duo de Broklyn, da parte da banda uma natural e expectável falta de rodagem das novas canções. O som de “Moth” é mais eclético. A pop continua a ser a matriz e voz (magnífica!) de Caroline Polachek a cola que mantém tudo coeso, mas há uma electrónica mais experimental estrategicamente colocada e até espaço para algum jazz pelo meio (em palco contaram inclusivamente com um guitarrista de jazz a acompanhá-los). Porém, agora que o álbum já foi lançado e já tive oportunidade de o escutar (e os Charilift de amadurecer um pouco mais as canções em palco, com certeza), a minha opinião deu quase uma volta de 180º. Há canções aqui, senhoras e senhores. Acreditem! Canções para trautear. Canções para dançar. Canções para fechar os olhos e dexarmo-nos levar. Também há algumas que facilmente saltamos, é certo, mas se tivermos em conta que este é um álbum em que a banda assume um risco de fazer algo diferente, de querer crescer numa direcção, então é fácil concluir que há aqui muito mérito no resultado afinal. Fica «Crying in Public», que inicialmente até parece uma canção de amor piegas, mas quando começamos a encaixar cada uma das palavras, a sinceridade com que são cantadas vem ao de cima e não conseguimos deixar de nos sentir indiferentes ou não se referissem à experiência pela qual Polachek passou ao se apaixonar pela pessoa com que veio a casar. E a verdade é que não me importava nada de os rever ao vivo novamente. De certeza que ia ser diferente.

“Sorry I’m crying in public this way / I’m falling for you, I’m falling for you / I’m sorry I’m causing a scene on the train / I’m falling for you, I’m falling for you

Love will be the bridge / Over the sand / Love will be the key / From hand to hand”

chairlifted.com
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Lubomyr Melnyk – Parasol

Lubomyr Melnyk toca piano como poucos. Talvez como ninguém. Por vezes consegue atingir as 19 notas por segundo com cada uma das mãos. É muito. Não é fácil de conceber na nossa mente. Exige muito treino. Muito empenho. Muita disciplina. Um enorme talento, mesmo que nem todos o encarem assim. A técnica dá pelo nome música contínua. «Parasol» é a coexistência perfeita de calma e caos mergulhados numa beleza imensa. São 13 minutos e 1 segundo capazes de abanar as fundações do nosso ser de uma forma que eu pensava não ser possível, apenas com recurso a um piano. Escutai. Várias vezes e sempre com o coração aberto.

www.lubomyr.com

Kendrick Lamar – Alright

Terminar 2015 sem escrever algumas palavras sobre Kendrick Lamar não me parecia justo. O puto de Compton fez-se homem com “To Pimp a Butterfly”. As letras reflectem isso. Acertivo. Brutalmente honesto. Polémico. Um talento que o tempo apenas poderá refinar. «Alright» é o exemplo perfeito disso, ao ponto de ter sido utilizada como um hino durante os protestos associados ao movimento Black Lives Matter. Em 2016 vamos recebê-lo por cá. Ainda bem.

“Nigga, we gon’ be alright / Nigga, we gon’ be alright / We gon’ be alright / Do you hear me, do you feel me? We gon’ be alright / Nigga, we gon’ be alright / Huh? We gon’ be alright / Nigga, we gon’ be alright / Do you hear me, do you feel me? We gon’ be alright”

Emilie Levienaise-Farrouch – Scale of Volatility

A palavra tem muita força. Muito peso. Mas de quando em quando surge alguém que consegue transcender isso apenas com recurso a notas musicais. Notas que surgem encadeadas de tal de forma e são executadas com tamanha entrega que elevam a composição e nos fazem esquecer a voz. São momentos de enorme beleza. Emilie Levienaise-Farrouch conseguiu-o. São muito raros os álbuns que, apenas com uma audição, conseguem desencadear uma faísca cá dentro. Uma faísca que rapidamente se propaga numa imensa mescla de sentimentos que se confundem e se misturam com alegria, tristeza, saudade, felicidade e que nos fazem sentir vivos e com vontade de descobrir mais obras como esta.

www.emilielf.com